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Mães Sem CulpaKarla Crespo
Aberto

Comida de verdade tem gosto de infância

Uma lembrança da infância em Itaparica, o leite na porta e o mingau de tapioca da minha avó. Uma reflexão sobre comida de verdade, afeto e o tempo que reservamos para criar memórias com nossos filhos.

Por Karla Crespo · 16 out 2026

Comida de verdade tem gosto de infância

Gente, hoje quero compartilhar com vocês uma lembrança da minha infância que, mesmo depois de tantos anos, continua muito viva dentro de mim.

Desde que me entendo por gente, sempre fui apaixonada por uma cozinha. E os bolos, então? Ah, esses sempre foram meu xodó! Mas hoje não quero falar de bolo nem ensinar uma receita. Quero contar uma história que me fez pensar muito sobre a nossa relação com a comida e, principalmente, sobre os momentos que estamos vivendo com nossos filhos.

Quando eu era criança, costumava passar os finais de semana e as férias na casa de praia dos meus avós, em Itaparica, na Bahia. Tenho tantas lembranças boas daquele tempo! Uma delas é de um moço que passava na porta de casa gritando: "Olha o leite! Olha o leite!". Minha avó saía da cozinha com duas panelas daquelas com alças para comprar o leite de vaca, puro, que ele vendia. Eu achava aquilo o máximo! Ficava encantada com aquela cena tão simples. E, às vezes, ele também trazia mingau de tapioca. Gente, que delícia era aquele mingau! Parece até engraçado falar isso, mas, se eu fechar os olhos agora, consigo sentir o cheiro e lembrar do sabor. É uma memória tão gostosa que chega a dar saudade.

E sabem o que acho mais bonito nisso tudo? Naquela época, eu não fazia ideia de que aqueles momentos tão comuns se transformariam em lembranças que carregaria comigo pelo resto da vida. Era só mais um dia na casa dos meus avós, mais um final de semana, mais uma coisa simples acontecendo. E hoje, tantos anos depois, são justamente essas pequenas coisas que me fazem voltar no tempo.

Outro dia, pensando nessas lembranças, comecei a refletir sobre como a nossa vida mudou. Tudo ficou tão corrido, tão cheio de compromissos, que muitas vezes nem percebemos os dias passando. A gente trabalha a semana inteira, cuida da casa, dos filhos, resolve mil coisas e, quando chega o final de semana, está tão cansada que só quer descansar. E eu entendo, porque também vivo essa correria.

Mas tem uma coisa que vem me incomodando. Muitas vezes estamos todos em casa, mas será que estamos realmente juntos? Um está no celular, outro assistindo a alguma coisa, outro preocupado com o que precisa resolver na segunda-feira. E, quando percebemos, o domingo acabou, a semana começou de novo e aquele tempo que poderíamos ter aproveitado em família passou.

Fico pensando nas crianças de hoje e nas lembranças que elas vão guardar da infância. Será que nossos filhos vão ter essas memórias tão gostosas que nós temos? Será que, daqui a trinta anos, vão se lembrar do cheiro de alguma coisa que fazíamos em casa, de um bolo preparado juntos, de um café da tarde com a família reunida, das conversas e das risadas ao redor da mesa?

Não estou falando que precisamos passar o final de semana inteiro na cozinha, muito menos preparar uma mesa linda, cheia de coisas, como aquelas que vemos nas redes sociais. Estou falando de coisas simples mesmo. Fazer uma pipoca de panela, cortar umas frutas, preparar um bolo, chamar todo mundo para arrumar a mesa e sentar junto. Conversar sem pressa, ouvir as histórias das crianças, dar risada de alguma bobagem. Coisas que parecem tão pequenas, mas que, com o passar dos anos, podem ganhar um valor enorme.

Talvez seja por isso que eu fale tanto sobre comida de verdade. Porque, para mim, a alimentação nunca foi só uma questão de nutrientes ou de escolher o que é mais saudável. Claro que tudo isso importa, e muito! Mas existe também uma relação de afeto com a comida que não podemos perder. Quando penso em comida de verdade, lembro da comida que nossas avós faziam, dos ingredientes simples, das preparações caseiras, daquele cuidado que fazia parte da rotina.

E não quero romantizar o passado, porque sei que os tempos são outros e que hoje temos uma realidade bem diferente. Também não acho que precisamos fazer tudo em casa ou abandonar toda praticidade que a vida moderna oferece. Mas acredito que algumas coisas merecem ser resgatadas, principalmente o hábito de estar junto.

Depois que me tornei mãe, passei a olhar para tudo isso com ainda mais carinho. Quero que o Arthur cresça tendo boas lembranças da nossa casa, da nossa cozinha e dos momentos que vivemos em família. Quero que, quando ele for adulto, algum cheiro ou sabor faça com que se lembre de nós, assim como aquele mingau de tapioca me faz lembrar da casa dos meus avós.

E sabe de uma coisa? Talvez ele nem se lembre exatamente do que comemos naquele dia. Mas espero que se lembre de como era bom estarmos juntos.

É por isso que sempre digo que a comida constrói. Ela constrói nossa saúde, nossos hábitos, nossa relação com os alimentos, mas também faz parte da nossa história. Quantas lembranças da nossa infância não estão ligadas a uma cozinha, a uma mesa ou a alguém que preparava alguma coisa gostosa para nós?

Hoje queria deixar esse convite para vocês. Neste final de semana, tentem reservar um tempinho para estar com a família. Não precisa fazer nada especial. Pode ser só preparar um lanche, sentar à mesa, deixar os celulares de lado e conversar. Se as crianças quiserem ajudar, deixem participar, mesmo que façam aquela bagunça na cozinha. Quem sabe não é justamente dessa bagunça que vai nascer uma lembrança para a vida inteira?

Eu daria muita coisa para viver novamente um daqueles dias na casa dos meus avós, ouvir aquele moço gritando na porta e ver minha avó saindo com suas duas panelas. Na época, era uma coisa tão comum que eu nem imaginava o quanto sentiria saudade.

E talvez seja isso que eu queira dividir com vocês hoje: a gente nem sempre percebe quando está vivendo um momento que um dia vai querer lembrar.

Agora me contem, porque fiquei curiosa: vocês também têm alguma lembrança da infância ligada à comida? Algum cheiro, algum sabor que faz vocês voltarem no tempo? E o que costumam fazer com a família aos finais de semana? Conseguem reservar um momento para estar juntos?

Vou adorar conhecer essas histórias.

Um beijo,
Karla Crespo

Porque comida de verdade também é feita de histórias, afeto e presença. E o melhor sempre será aquilo que é possível viver e compartilhar.

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